quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Bem fez Capitu

Não conte, minha filha, nem sob tortura. Não aprendeu com Closer? A Capitu não lhe ensinou nada? A arte imita a vida e a vida é a arte da omissão. Mentiras sinceras interessam e unem. Verdades agridoces separam. Não deveria ser o contário? Em pleno século XXI, onde todos posam de modernos e cucas frescas, a monogamia feminina é a única alternativa aceita. Bonitas, castas e leais como cães de raça castradamente adestrados.Querem apenas isso. Relacionamento aberto só funciona para eles. E homem é tudo igual, só muda o passaporte e a versão idiomática de Ai se eu te pego. E se você sequer ventilar que a vida sexual de um cachorro vira-lata lhe interessa de alguma maneira, vai ser chamada de cadela. E quem sabe até sacrificada. Mas na coleira também não fique não.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Intimidade compartilhada

Abro o Facebook e vejo a foto da filha de um amigo no chuveiro. A ideia do pai era mostrar a felicidade da menininha ao entrar no banho – que eu até suspeito para um ser que não deve passar dos oito anos. Pouco mais abaixo, praticamente uma série de fotografias, de um sem número de usuários, sobre o prato que cada um comeu ou preparou no dia. Eu não sei realmente se eles querem mostrar que sabem cozinhar ou pretendem mesmo arruinar a minha dieta.

Logo a seguir, a clássica. “Essa pessoa aqui se ama com todos os seus defeitos” – e uma setinha ridícula apontando para o avatar do lado esquerdo. Geralmente, esse tipo de “animação” (não achei palavra melhor para definir isso) vem acompanhado de postagens de auto-afirmação, que… vamos lá, enchem o saco de qualquer cidadão (em tempos de redes sociais, espaço em que se compartilha tudo, para quê pagar terapia?). Pior de tudo é quando se tem um membro distante da família, um tanto quanto pervertido, publicando 854426542 fotos de mulheres nuas ou piadinhas machistas nas redes por minuto…

Atire a primeira pedra quem não publica suas banalidades. Uma tensão pré-prova, uma TPM, uma partida, uma dor de cotovelo podem até ser aliviadas quando desabafadas ou mesmo comentadas pelos amigos virtuais – sejam eles do peito ou nem tão chegados assim. Mas essa sensação de que se sabe tudo da vida do outro, de que se almoça, dorme, janta, acorda, dirige, pega engarrafamento, passa três horas na fila do banco, encontra um desafeto na rua, trabalha até de madrugada com a pessoa… isso tira o apetite, o sono e o tesão por uma coisa que deveria ser apenas instigadora. Ao invés de lembrar um delicioso espiar de fechadura, parece que você está casado com seus 549 amigos. Vôte!

Se é para compartilhar, que se reparta o encanto - pela arte, pela natureza, pela vida, por alguém. O resto é perfumaria. Nem todo mundo se interessa por um livro tão aberto assim.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

E então, que quereis?...


"Não estamos alegres,
é certo, mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?"

(Maiakóvski)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Post de uma morte anunciada (em noite de Natal)

Ela se apaixona, escreve, guarda. Guarda não, às vezes publica, sem fazer alarde, para alguns poucos e bons lerem. Mas as fontes de inspiração nunca sabem que as são. Não enquanto os dados rolarem, os jogos durarem e o sangue, ao menos o dela, ferver. Às vezes, no final da partida, põe fim ao mistério e se entrega. Foi pra você. Se serve como um pedido de paz ou um tiro de misericórdia ao (ex)afeto, quem vai saber? Nem ela compreende as intenções do próprio ato. Porém, admite que uma vez mostrada, o final se deu. Ontem ele foi enviado em uma moldura bonita, como um presente de Natal. Embalado verso a verso, da mesma forma como foi desembrulhada peça a peça a primeira noite dos dois, que inspirou o texto. Mas talvez a tacada final não tenha o mesmo sentido das anteriores, enviada a uma meia dúzia de destinatários, não menos especiais, cada um a seu tempo (e todos no tempo dela). Natal é nascimento. Renascimento. E entendam isso como quiserem - porque, até hoje, nenhum deles conseguiu entender.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Fé?

E então ela desviou o caminho da biblioteca e foi parar ali. Ali ficou por uma meia ou duas horas. Não se prendeu ao tempo. Apenas sentou. Ao pé do altar. E chorou. Não um choro que lavasse nada, apenas algo que transbordava dos olhos e ela não conseguia - nem tentaria - controlar. Não conseguia rezar. Desaprendeu a orar desde que descobriu o mundo e a ciência. Nada pediu. Nem amor. Nem saúde. Nem dinheiro. Nem perdão. No fundo, só queria não se sentir tão sozinha. E conseguiu levantar do banco. E enfim seguiu para a biblioteca.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cinco segundos

Eu nunca gostei que me olhassem diretamente. E não estou falando dos amigos, dos parentes e desconhecidos. Estou falando de quinze anos atrás, naquele carro à beira-mar, quando ele me pediu para olhar nos olhos e eu corei pela primeira vez. A cena também me faz lembrar de meses, de momentos que voltaram a se repetir há duas semanas quando, no apogeu da intimidade, aqueles belos olhos castelhanos procuravam pelos meus. Que sempre sorriram de volta, mas não por mais de cinco segundos. Logo fugiam para o seu mundo outra vez. Também não foi diferente num voo qualquer, em que o melhor amigo colorido virava da poltrona da frente e tentava capturar o mais simples delize dos verdes. Que desta vez não se deixaram trair. E agora vem os seus, no meio de uma aula monótona, tentar roubar aquilo que os outros, há tanto tempo me encarando, nunca conseguiram captar. Esses recém-chegados puxadinhos nem imaginam que só há uma coisa pior que me olhar fixamente por mais de cinco segundos: é me ler acima dos cinco decibéis.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Encaixe

Não dá para negar que o passado tem muita força. Por mais que se queira fugir desse fato, ele sempre consegue um jeito de te pegar. Seja num beco qualquer, naquele mirador preferido que reserva tantos segredos e histórias, nos cenários que se repetem, ainda que em circunstâncias completamente inéditas. Ele está ali. Impregnado como perfume barato, como o batom vulgar que mancha a taça, como o sapato velho que carrega as marcas dos teus pés e que puro e simples conforto lhe tira a coragem de jogá-lo fora. Mas entre um suspiro e outro, entre uma nostalgia e outra, entre um vinho verde e um tinto, você lembra que o futuro já chegou. E por mais que o sapato novo implique alguns calos e exija uma difícil adaptação, é hora de se dar conta que talvez ele tenha a forma mais bonita de te levar a novos caminhos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Todos os caminhos me levam ao além-mar

Eu não sei se Lisboa dorme cedo demais ou se eu é que estou sempre acordada. O fato é que, da janela, eu não reconheço mais esse silêncio. As ruas já não me dizem nada. O barulho dos raros carros em Arroios de nada diferem dos sons de ninar que agora passam num canal português. Não trazem sono nenhum. Tampouco tiram. Saio sozinha, sinto o vento, sinto apenas ele. Uma semana se passa da minha chegada e as malas ainda continuam quase intactas no chão, prestes a serem levadas para o primeiro autocarro, comboio, avião... para um destino qualquer. Nesta madrugada quente, penso no quanto quis estar aqui. E agora, que cá estou, não sei bem a que vim. Parte é saudade do nojento cheiro de cerveja e catchup das ruas de Dublin. De entrar no primeiro Luas, sem saber se faz o sol ou vai chover, e descer naquela parada que acelera o meu peito. Que enrosca as minhas pernas e só me deixa ir embora no dia seguinte. Desse vazio que sinto agora, a outra parte eu não sei bem o que é. Eu só sei que quanto mais conheço os cenários, mais eu descubro que me apaixono mesmo é pelas pessoas. Sozinha, tudo não passa de mera paisagem.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Onde há fumaça

Enquanto bafora um Drum na cara dos caretas, mexe a taça de vinho seco e ajeita o vestido insinuante, ela diz em alto e bom tom que acha o máximo sexo sem compromisso. Ela é metida a moderninha. Tatuou liberdade nas costas. Gosta de dizer que ninguém é de ninguém. Adora dizer que ela ela mesma não é de ninguém. Mas no fundo ela só fuma você. E quer que você seja só dela.

Ela esconde um careta tatuado na alma.

(Des)Controle

Você não sabe até que ponto estão juntos. Não sabe qual será a resposta da entrevista de emprego. Não sabe o que será do doutorado. Não sabe onde vai estar no mês seguinte. Sequer sabe onde vai morar, já que seu contrato de aluguel está por vencer e você precisa saber dos resultados para se movimentar. Você não consegue pegar nas respostas, apalpá-las, botá-las na bolsa e tomar o próximo ônibus para trabalhar. Taurina, elemento terra, teimosa. Busca obsessivamente a segurança, ainda que se entedie cinco minutos depois de alcançá-la. Mas isso vai além do João Bidu. No auge da aflição, você lembra que ninguém consegue controlar o destino, o dia seguinte, o próximo minuto da vida. Então você relaxa, goza e deixa o cosmos catar as respostas por você.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

De conchita

Não passava das oito da manhã de um sábado qualquer. Ela sequer tinha noção das horas. Acordou num rompante, sentindo o leve peso de um braço nas costas, puxando pela cintura. Abrir os olhos era uma tarefa difícil, ainda mais pelo medo do que poderia encontrar pela frente depois de uma noite regada a drinks mirabolantes. Ok, irmã, coragem. O vestido amassado no chão dava a primeira pista. Da bolsa, meio aberta, podia-se ver sua escova de dentes, chaves da casa, celular, carteira, cigarros e demais itens de primeira necessidade. Ampliando o campo de visão... o quarto. Nunca tinha estado ali. Na verdade, sempre evitava acordar em outro quarto que não fosse o dela. Por baixo do edredom, sentia a camisa de algodão. Que não era dela. Hora de virar. Sim, era dele. E era ele. E por mais que ela tenha tentado fugir dos cineminhas, parques e passeios ao ar livre que implicassem a mínima convivência e sobriedade, eles agora dividiam a mesma cama. Onde ficaram por mais longas horas naquele primeiro sábado. Daquele dia em diante ela percebeu que não importa o quanto tente resistitir: a intimidade sempre acaba chegando uma hora. Ou outra também. E dessa vez nem doeu.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cosas de la vida

Tem gente que nasce normal: casa com o amigo de infância, namora o garoto do bairro, o colega da escola ou se apaixona pelo amigo do amigo. E tem gente que nasce assim, como eu: com o dom de se encantar por gente que nunca mais vai ver...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Primeiro encontro irish

Nove da noite, em frente ao Mc Donalds do Stillorgan Shopping Center. Ele foi fofinho, chegou vestindo uma blusa do Flamengo, no melhor estilo gringo com orgulho de ser brasileiro. Eu esperava por um cafe, mas terminou numa pint de Guinness. Alias, duas, porque amanha ele tem trabalho e eu tenho aula. Quando eu pensava que teria a melhor aula de conversacao em ingles da minha vida, o gringo danou-se a falar portugues. Compulsivamente. Eu tenho muito saudade do Brasil, repetia a cada cinco minutos. O bom e que ouvindo o portungles dele, a experiencia do galego no pais tropical, eu senti um amor verdadeiro. Um amor de um bem-nascido de primeiro mundo, pelo trabalho social que fez na favela. Pelo futebol, por Ipanema e por tudo que o Rio tem a oferecer (de bom e de ruim). Ele nao era exatamente bonito, latinidade zero. E a falta da pegada latina, da cafagestagem italiana (ops, ato falho, latina) que tanto seduz as mulheres (inclusive eu) de certa forma me encantou naquela cara de menino bom. Ate o momento em que fomos ao carro e ele me convidou para tomar a saideira. Na casa dele ou na minha? Ai o negocio desandou, porque eu percebi que homem, latino ou nao, sempre vai querer lhe c&$%£ no final do encontro, principalmente sabendo que voce e brasileira (=mulher facil, na visao europeia). Sorry, honey, for tonight I just only wanted to learn English. See you soon.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Meu mundo, um moinho

"Preste atenção querida, embora saibas que estás resolvida, a cada esquina cai um pouco a tua vida, em pouco tempo não serás mais o que és. Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó. Preste atenção, querida, em cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares estás à beira do abismo, abismo que cavaste com teus pés".

Poxa, Cartola...

Porre


Sim, eu sofro por amor. Eu trinco os dentes, dilato o veneno em palavras, atos, gestos, omissões, estirando o dedão ou em postagens nas redes sociais. Eu vivo da palavra, nada mais justo que ela me sirva de alguma coisa quando o divã do analista parece longe demais. Sim, algumas vezes eu sou vulgar quando escrevo. Minto, invento, maltrato, ataco. Mas o amor é vulgar. Ele trai, fere, engana e (quase sempre) depois está tudo bem. Porque os melhores sentimentos são assim, bons e ruins. Esqueçam E o vento levou. Assistam Closer. É triste, mas é mais real. Vinícius é lindo, Fernando Pessoa nem se fala. Mas eu tô mais para Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu. A cara do fundo da taça de Guinness. Aliás, de cinco Guinness.

Pecado original

Ela quer dar uma de blasé. Insinuar que está com, sem se entregar que está com. Põe lá a fotinha, como quem nada quer, das duas mãozinhas adolescentes se encontrando numa parede qualquer. Não sabe ela que aquela mão é minha. Ok. É dele. Portanto, mais minha ainda. Não sabe ela que enquanto aquela mão passa o tempo com a mão dela, é a minha mão que ele vai estar imaginando. Posso parecer soberba, e daí? Foda-se, tudo pela poesia, ainda que jorre em Times New Roman os meus piores sentimentos. E ainda digo mais, enquanto a mão dele mata o tédio com a mão dela, a minha se diverte com a do Marco*. Porque Deus criou a Itália, mas os italianos... aquela gente é coisa do capeta.

*O nome do personagem foi trocado para as pessoas não ficarem se achando.

domingo, 5 de junho de 2011

South Circular Road

Na vitrola, In a little while, canção do U2 que a minha sister roomate coloca todas as manhãs assim que acorda. Um Drum azul marinho queima na janela, balanceando com o cheiro bom do incenso. Da janela também da para ver as casinhas de trás, as portas azuis, vermelhas e amarelas. Vejo um velhinho sair de bicicleta. Toco o vento frio, o sol não saiu hoje. A pomba está lá, na chaminé. Ops, já não está mais. Hora de começar a arrumar as malas outra vez. Novo trabalho, nova casa, nova vida. Não vai ter mais Temple Bar depois da aula. Nem vinho na cozinha, compartilhada com outros sete, cada um de um canto do mundo. Sentirei falta desses dois intensos meses na South Circular Road, 403. Mas outras coisas virão. No fundo, sou meio como a pomba que acaba de sorrir para mim agora. Gosto de mudar de chaminés.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Beira mar

Sou morador das areias,
de altas espumas.
Os navios passam pelas minhas janelas
como o sangue nas minhas veias,
como os peixinhos nos rios.

Não tem velas, e tem velas;
e o mar tem e não tem sereias.
E eu navego e estou parada;
Vejo mundos e estou cega.

Porque isto é mal de família:
ser de areia, de mar, de ilhas.
E até sem barco navega,
quem para o mar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília.
Porque tudo é mar - e mais nada.

(Cecília Meireles)

*Presente da minha mãedrástica.

domingo, 29 de maio de 2011

Efeito Xylocaína

Chega uma hora em que não dói mais. Cadê a mágoa? O ciúme? A dor? Acabou. Não dói a saudade. Nem dói ver por acaso (=fuçando até encontrar) aquela foto suspeita. A culpa voou. Os ombros tão leves. Não há mais planos. Então, não há mais riscos. Nem há mais procura. Consequentemente, não há mais espera. Parece que o amor foi aposentado. Podem achar entediante, mas... que alívio que dá! Não sentir mais nada dá uma sensação de liberdade imensa. Eureka! Acho que é isso! Esse peito só volta a trabalhar agora se a proposta for realmente muito boa. Por enquanto, segue a vida como autônomo. Terceirizando serviços de vez em quando...

Sonhos são como deuses*

Tem uma música do Fred Zero4 que diz que os sonhos murcham feito maracujá velho. Eu acho que não. Murchar é muito. Eles diminuem. Eu, que de um par de anos para cá comecei a sonhar em ser uma (boa) professora universitária, agora sonho em conseguir aquele emprego de babá. Pelo menos por enquanto. Está vendo?! Os sonhos mudam de foco. Como as frutas, dependem da terra, do cultivo, da estação. O sonho do Brasil não é o mesmo da Irlanda. Assim como o do Chile não será o do Japão (quem sabe para alguns, pelo terremoto em comum). O fato é que, para se conseguir aquele sonho maior, é preciso criar uma série de sonhos pequeninos pelo caminho. Conquistar cada um deles. Fazer de cada passo escada pro céu. E haja degrau! Por isso, assim como o maracujá, os sonhos fragmentam, diminuem, despedaçam... A diferença é que depois eles crescem de novo. Até se tornarem o mais belo maracujá da feira. Quem sabe, até que eu me torne a professora universitária poliglota que eu tanto sonhava em ser. Ou até que o meu sonho mude outra vez. Vai saber...

*Quando não se acredita neles, deixam de existir. (Na vitrola, Marina Lima).